Aulas virtuais conseguem produzir uma experiência corporal viva e sensível?

Acredito que sim.

Esse laboratório nasceu justamente da minha vontade de transformar o espaço virtual em um lugar de aprendizado, de produção experiencial e de conhecimento.

Essa aspiração por 'encarnar' aulas online de yoga surgiu em consequência do contexto singular que estamos vivendo, de isolamento físico devido à pandemia do COVID-19. Antes, esse laboratório de 'yoga contemporâneo' ocorria presencialmente no Yogashala, em Florianópolis. 

Recorro à esse termo, 'yoga contemporâneo', na falta de expressão mais adequada para caracterizar as aulas que leciono. Nos últimos anos, venho experimentando influências de diferentes culturas de movimento dentro da prática de yoga (capoeira, ginástica natural, danças etc), como forma de trazer a tona os múltiplos imbricamentos culturais que podem ocorrer em uma prática considerada ancestral.

Recentemente, iniciei em minhas aulas presenciais uma proposta de intersecção entre o Hatha Vinyasa Yoga, estilo de yoga desenvolvido por Camila Reitz, e o método da Somato-psicopedagogia, elaborado por Danis Bois. Resolvi, então, fazer esse site, que é parte de meu Trabalho de Conclusão de Curso em Fasciaterapia, que visa investigar os benefícios desse encontro de métodos. De maneira geral, esse encontro produz uma prática de Yoga dinâmica mas lenta, em que cada postura e cada transição (vinyasa) acontece a partir do Sensível.

Mas, o que seria o Sensível? 

Inicialmente, a palavra sensível nos remete à nossa relação com os sentidos, como tato, visão, olfato etc. Indica a propriedade do corpo de reagir e ser estimulado, através de percepções sensoriais, pelo mundo que nos cerca. Mas também, quando dizemos 'estou sensibilizado por tal situação', indica que o mundo é capaz de nos afetar, de tocar não somente o corpo, mas também nossos sentimentos, nossa subjetividade. 

 

Mas, na Somato-psicopedagogia, o Sensível se refere à via de passagem que unifica o corpo e o espírito, processo denominado de 'afinação somato-psiquíca. A relação com o Sensível fornece informações ligadas ao que é sentido internamente ao corpo (como um calor em alguma região) mas também traz informações que possuem valor existencial, tais como "sinto que me re-encontrei", "sinto-me unificado".

A esfera do sensível brota a partir do contato direto e íntimo com o corpo e pode ser acessado através de um movimento interno.

Que movimento interno?

Embora existam no corpo diversos 'movimentos internos' (como a respiração, os batimentos cardíacos, o peristaltismo etc), no método Danis Bois, quando falamos em movimento interno estamos nos referindo a algo que se move 'no seio da matéria' corporal. Esse movimento interno é global, ou seja, abrange todos os tecidos do corpo, e é animado por uma ritmicidade de dois ciclos por minuto. Sua função é participar da auto-regulação físiológica e psíquica da pessoa. 

A relação consciente com movimento interno, possível através de um processo de introspecção, geralmente traz um forte sentimento de reencontro da pessoa consigo mesma. Tal re-encontro surge como um sentimento de existência: "o meu corpo sou eu". O movimento interno é o suporte fundamental do paradigma do Sensível e a ferramenta principal do nosso Laboratório.

Como funciona o Laboratório?

O laboratório funciona através de três processos não necessariamente sequenciais:

MÍMESIS -> ACESSO AO SENSÍVEL -> MODIFICABILIDADE PERCEPTIVO-COGNITIVA

Mímesis

De maneira simples, mímesis (ou mimese, mimésis) é o processo de aprender imitando.  A imitação talvez seja o modo de aprendizado social mais antigo da humanidade, presente também entre os animais. Nas aulas virtuais, a pessoa aprende a coordenar aquilo que é visto, no caso o professor executando os movimentos, com suas próprias ações corporais. No nosso laboratório, a mimésis não significa apenas a internalização de uma coreografia proposta, mas sim um processo de 'sintonização fina, em que o aluno aprende a desenvolver a atenção para aspectos não tão evidentes, como a linearidade do movimento, o cadenciamento, a lentidão, a coerência, daí para o acesso ao movimento interno.

 

É importante entendermos que mímesis não significa uma reprodução idêntica ao que está sendo visto. A aprendizagem ocorre em um misto de imitação e improvisação, em que o conhecimento gerado pelo iniciante é também uma autodescoberta. Existe inovação no processo mimético, porque tanto o contexto ambiental (o local aonde o professor e o aluno estão durante a prática) quanto a constituição psicofísica de ambos, diferem. No nosso laboratório, a mimese é uma etapa inicial que serve para que o aluno, a partir de uma orientação externa, aprenda a fazer uma sintonização gestual, deixando mover-se no Sensível.

Acesso ao Sensível

Quanto mais o praticante deixa-se levar por aquilo que anima a interioridade do corpo - o seu o movimento interno - menor se torna a reprodução mimética e a necessidade de seguir rigorosamente as coreografias do professor. Embora o aluno possa continuar seguindo as posturas e transições que são propostas a ideia aqui é o aluno entrar em um diálogo tissular, atentando-se para suas imobilidades, seus hábitos motores e perceptivos, e dando liberdade para a emergência de fenômenos pessoais.

 

Para o acesso ao campo do Sensível são utilizados instrumentos que se situam na fronteira entre as funções motoras, sensoriais e pspiquicas da pessoa, que são desenvolvidos mediante a orientação verbal do professor/terapeuta. São estes: a atenção; a percepção cinestésica; o pensamento; a memória; a experiência; a empatia; e a regulação tônica. Esses instrumentos são elaborados no decorrer das aulas.

 

Modificabilidade perceptivo-cognitiva

As práticas do laboratório não se reduzem à uma prática de Yoga promotora de bem estar físico e mental. O objetivo das aulas é a mudança de hábitos motores, perceptivos e mentais que condicionam a nossa forma de se relacionar com o mundo.

Para a Somato-psicopedagogia o conceito de modificabilidade abrange a ideia de que existe uma potencialidade de desenvolvimento em todas as pessoas, que pode ser apreendida através da relação com o movimento interno.

O Sensível que que brota a partir da experiencia carrega sentidos e significações que podem ser exploradas para fins pedagógicos, de transformação e amadurecimento. No método Danis Bois, é utilizado propositalmente o adjetivo 'perceptivo-cognitivo' para indicar que é a experiência perceptiva, já portadora de sentido, que antecede qualquer ato reflexivo. O acesso ao movimento interno pode tomar a forma de sensações físicas precisas (como um calor) e de 'informações significantes', onde a pessoa consegue elaborar o que vivenciou em termos conceituais e representacionais.

Nessa etapa, o aluno tem a possibilidade de integrar e dar significado à experiência. No momento, essa etapa é feita através de um grupo de whatsapp, em que os participantes podem relatar aquilo que foi vivenciado durante as aulas virtuais. Com os relatos pós-vivência a pessoa aprende a refletir acerca das novas experiências.

Bibliografia consultada

1 BOIS, Danis. O eu renovado: introdução à somato-psicopedagogia. São Paulo: Ideias e Letras, 2008

2 ______; AUSTRY, Didier. A emergência do paradigma do sensível. Revista @mbienteeducação, volume 1, número 1, Jan/Julho 2008. Disponível em: http://www.cidadesp.edu.br/old/revista_educacao/index.html. Acesso em: 18/06/2020

3 Ingold, Timothy. The perception of environment: essays on livelihood, dwelling and skill. Londres e Nova Iorque,: Routledge, 2000.

4 ______. Da transmissão de representações à educação da atenção. Educação, v. 33, n. 1, pp. 6-25. Porto Alegre. 2010.