COMO DISSOLVER AS ESTRUTURAS?

Ultimamente, venho achando um desperdício, quase uma insensibilidade, querer confinar os movimentos do yoga 1) ao âmbito do mat; 2) dentro de uma estrutura de asana's estabelecidos em uma suposta tradição.

A comodificação do mat e a cisão do chão.

De acordo com textos da tradição e com o conhecimento popular, antigamente a prática de yoga era feita sobre diversos materiais, como junco (um tipo de grama), pele de tigre, de veado; uma cama de pregos; e até sobre o formigueiro!

Hoje, a prática de yoga ocorre em cima do 'tapetinho', também conhecido pelo seu nome importado - mat. Recentemente, os yoga mats começaram a ser feitos a partir de processos industriais, envolvendo borracha, plástico e materiais reciclados, sendo exemplos os de EVA, PVC e TPE (termoplástico elastômero). Os mats de hoje se destacam por suas características antiderrapantes, antitranspirantes, pela durabilidade e pela capacidade de absorver impactos. Os produtores de mats também estão mais preocupados com a 'pegada ecológica', se compararmos com as peles de tigre de outrora! 

Os mats tornaram-se objetos exclusivos e vêm se tornando cada vez mais especializados - existem tapetes para o estilo yoga Flow, Hot yoga, tapetes para crianças e até para animais de estimação!  

Abro aqui um parêntese para observarmos uma tradução alternativa, não menos legítima do ponto de vista etimológico, do conceito de asana trazido por Patañjali no sutra 2.48 - "O asana deve ser firme e agradável" (shtira sukham asanam). A palavra asana pode não significar somente postura, mas também o assento, a superfície aonde o corpo permanece, que, de acordo com o sutra, não deveria ser nem dura, nem macia demais. E, de fato, quem está acostumado com a prática de yoga, reconhece que um bom mat é aquele que possui um equilíbrio entre essas duas propriedades.

Porém, sem desconsiderar as propriedades e desvalorizar os benefícios estéticos e ergonômicos destes tapetes, gostaria de questionar sua função dentro de uma perspectiva de crescimento no e através do yoga. Reconheço que o yoga mat pode servir para a criação de um 'espaço liminal' - situação privilegiada, aonde podemos acessar um lugar e uma subjetividade singular ao qual o cotidiano tende a nos alienar. Mas hoje, gostaria de ficar com a crítica, e questionar isso que hoje é considerado o símbolo mais ubíquo da commoditização do yoga. Hoje, assim como os inúmeros gadgets (quinquilharias) criados dentro da cultura fitness, o alto preço que se paga por um mat de 'tecnologia inovadora', vem acompanhado pelo alto preço de ter um corpo incapaz de se adaptar a outras superfícies, densidades e temperaturas. Como sintetizou Ido Portal - "High tech shoes, low tech feet" (lietralmente: "tênis de alta tecnologia: pé de baixa tecnologia). Assim, penso que uma ocasional saída da dependência do tapetetinho, permite o desenvolvimento de uma maior adaptabilidade, uma reaproximação às coisas básicas, e à possibilidade maior de criação de posturas e movimentos situados fora do script que a tradição do 'yoga no tapetinho' vem estabelecendo.

Olhando por debaixo do cachorro olhando pra baixo (...)

Ao meu ver, a saída dos limites do mat indica a saída de uma estrutura que foi se criando em torno do que seriam os ásanas de uma suposta tradição milenar, ideia esta mantida por aqueles que não concebem o yoga como uma construção humana, social, atravessada por forças  políticas. Se fizermos uma escavação genealógica do yoga que praticamos atualmente, veremos um buraco bem raso. Algumas posturas estão sim referenciadas em textos mais antigos, gravadas em pedras que restaram da civilização do Vale do Indu. Muitas, porém, entraram no repertório do yoga no século passado, muito recentemente.

Penso que podemos traçar um paralelo entre as posturas yóguicas e as letras e palavras do nosso português - são estruturas, formas, que carregam um potencial de significação. Sem um aprendizado disciplinado sobre elas, não existe liberdade na escrita. A liberdade de movimento, assim como o processo criativo do poeta, é erigido a partir de estruturas. Mas há que perceber que essa estrutura está também em movimento!

Cabe a pergunta: Quando, então, é momento de improvisar? Acredito que sempre. Minha filha de três anos, por exemplo, mesmo sem decorar todo o alfabeto, já está inventando palavras, contrariando normas básicas do português, subvertendo a ordem da escrita. Lindo! Sobre a língua - um livro que libertou meu entendimento do que é 'falar corretamente' foi o "Preconceito linguístico", de Marcos Bagno. Sugiro a leitura, e que transponhemos esse entendimento para a prática de yoga, para que possamos refletir o yoga como uma linguagem. Assim, a 'postura correta' deve ter valor temporário, senão estaremos fadados à rigidez.

O QUE PROVOCA A MUDANÇA?

As passagens de uma postura para outra, no estilo de yoga Hatha Vinyasa, são muito valorizadas. Além de funcionarem como termostato corporal, também servem como metrônomos, uma vez que organizam a prática dentro da marcação respiratória.

O vinyasa, ou seja, o movimento dentro prática de yoga, ainda nos lembra da transitoriedade da vida, das mutações, de Shiva dançarino etc. 

E o que provoca a mudança de um postura para outra? Entende-se na prática de Hatha Vinyasa que é a sua respiração que deve marcar a entrada ou saída no ásana

A respiração pulmonar até pode ser um bom starter, mas sugiro deixar que o próprio movimento se torne a respiração.

No momento em que se mantém a atenção na respiração durante todo o vinyasa o movimento perde a espontaneidade. Basear a  velocidade do vinyasa de acordo com o controle respiratório nos retira a percepção do movimento interno, autônomo. É como se o gesto perdesse autonomia. De outra forma, quanto mais passiva for a respiração, maior se torna a percepção do movimento. Isso acontece de forma semelhante na meditação - parece que a respiração some, ou fica bem sutil, ao que nos abre para a percepção de uma consciência maior. De uma plena presença.

Baseado em conversa com Danis Bois (28/06/2020)

O lugar da atenção na escuta do biorritmo

Semelhante ao conceito yóguico de ekagrata ('um único ponto - concentração), a atenção é, para William James, uma ação conduzida ao espírito que dá vivacidade e riqueza à experiência de um objeto ou fluxo de ideias, em detrimento de todo o resto que acontece simultaneamente (BOIS, 2008). No método Danis Bois, a atenção é o primeiro instrumento a ser desenvolvido, haja vista que é aquilo que permite a imersão da pessoa na experiência do corpo.  A mobilização atencional é habilidade que permite à pessoa de captar elementos não-conscientes, pois ela sensibiliza o corpo e seus movimentos. A percepção, segundo Merleau-Ponty, cria o movimento.

 

-Hoje eu entrei e senti o mar gelado do Campeche; e de imediato senti que vivia. O mar provou minha existência, pois eu provei o mar.

 

A atenção sobre a respiração da fáscia conduz a uma movimentação lenta, suficiente para que a pessoa possa degustar plenamente da experiência de deslocamento físico. Para mim, a adesão à esse ritmo ainda permite um conhecimento sobre os eixos cardeais - um dos princípios do movimento físico - possibilitando de mover-me com o tônus relaxado.

A atenção pode ser global, observando o movimento gestual como um todo, ou ela ainda pode particionar-se, sem perder sua integridade, possibilitando o surgimento de autonomização das partes. Assim, a atenção no biorritmo não impede que apareçam variações rítmicas e timbristicas. Um exemplo disso é a musculatura da face, de alta capacidade transformativa (expressões) e autonomia.

Segundo Danis Bois, o movimento lento, o silêncio, propiciam o surgimento de uma situação extra-cotidiana - momento oportuno para a mobilização atencional. Isso porque quando diminuímos a velocidade do movimento, abrimos a percepção para detalhes normalmente ignorados.  justamente essa mecanicidade, continua Bois, que está entranhado em nossos padrões motores - o jeito da gente se movimentar na vida - que deve ser nosso primeiro objeto de mobilização atencional. Veja: uma vez que esse movimentos tornaram automatizados, deixam de ser sentidos.

Os olhos fechados também são, para o método, uma forma de investigar o corpo mais de perto. Aguçando sua atenção no movimento do corpo a pessoa descobre o seu sentir e dá um sentido a ele.  Assim, "reaprende a aprender"(BOIS, 2008, 132).

Baseado em BOIS, Danis. O eu renovado: introdução à somatopsicopedagogia. São Paulo: Ideias & Letras, 2008.

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